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12 agosto 2017 - 14:43

Em entrevista à Guaíba, Araújo disse ter pena, e não ódio, de quem o torturou

Ex-deputado, que foi preso político, foi um dos consultados, em 2014, para reportagem especial sobre os 50 anos do golpe militar

Araújo, em sua casa, na zona Sul de Porto Alegre. Foto: Gabriel Jacobsen

Araújo, em sua casa, na zona Sul de Porto Alegre. Foto: Gabriel Jacobsen

O ex-deputado Carlos Araújo, que foi preso político durante a ditadura militar brasileira, disse, em 2014, em entrevista exclusiva à Radio Guaíba, ter pena – e não ódio – daqueles que o torturaram. Araújo morreu, nessa madrugada, aos 79 anos, em Porto Alegre.

“Não se pode acumular, nunca, tristezas, nem amarguras, senão fica doente… A gente tem que se desvencilhar delas, de uma forma crítica, mas tem que se desvencilhar. Não adianta levar rancores, raivas, ódios. É ruim para a própria pessoa. Não tenho ódio de ninguém. Porque não é ele (o torturador), é outro (o que manda torturar). Eu dizia para o cara… ‘Eu tenho é pena de ti. Tu é obrigado a fazer isso, em mim, que nunca fiz nada para ti. A minha situação é melhor do que a tua’, eu falava. Sempre falei. E era mesmo”, relembrou, na tarde de 13 de março de 2014.

Em trecho recuperado da entrevista, ele também fala que o capuz usado durante as práticas de tortura servia para facilitar os crimes cometidos contra os presos políticos, evitando que o torturador tivesse que enfrentar ‘o olho no olho’ com o torturado.

“O que é a relação torturador-torturado? As pessoas não gostam de falar nisso. Eu, se um dia for escrever sobre alguma coisa, vou escrever sobre isso. O capuz não foi criado para tu não saber quem está te torturando. O capuz foi criado para não ter o olho no olho. O olho no olho é f***! Para ambos! Mas mais para o torturador”, completou.

A entrevista foi concedida ao repórter Gabriel Jacobsen para a série de matérias especiais Para descomemorar: 50 anos do golpe midiático-civil-militar, de autoria de Gabriel Jacobsen e Samantha Klein.

Fonte:Rádio Guaíba